
Dez anos sem Ladjane
Publicado em 05.03.2009
José Mário Rodrigues
Mas Ladjane se foi há dez anos, março de 1999. Morava perto de mim, na Boa Vista, quase às margens do Capibaribe poluído, depósito de esgotos da cidade. Às vezes, lá pras bandas da Ponte Limoeiro, no fim da Rua da Aurora, vejo umas garças tristes e o óleo das máquinas que se mistura com a água do rio.
Aqui, nesta mesma Boa Vista, ela trabalhou na série Biopaisagem, desenhos que eternizam o seu talento de artista reclusa, que não fazia exposição nem colocava os seus quadros em galerias e nem estava preocupada em vender a sua arte para subsistir. Ela tinha uma certa compulsão pelo silêncio e por espaço. Para ampliar o seu ambiente, usava espelhos. O seu apartamento, apesar de grande, aparentava ser bem maior do que na verdade era. Criou Ladjane um espaço ilusório para viver?
É difícil viver sem ilusão. Excesso de realidade mata. Atrofia a sensibilidade. Seca a alma.A Biopaisagem, sua identidade de artista, levou vários anos para ser concluída, se é que teve conclusão. Merecia ser transformada em álbum de desenhos. Que bom que a Cepe ou a Fundarpe encampasse essa empreitada. O desenho, por ser em papel, é fácil de logo ser devorado pelo tempo. Ao contrário do óleo sobre madeira e a tela.A artista de Nazaré da Mata marcou época nesta cidade. Influenciou gerações e pontificou nos suplementos literários com a sua cultura e conhecimento filosófico.
Quando a conheci, ela estava terminando um painel no restaurante do Hotel São Domingos, na época, o mais sofisticado do Recife. Foi Audálio Alves e Carlos Moreira que me apresentaram a autora de A viola do Diabo, peça teatral encenada algumas vezes entre nós. Moreira, Audálio e o então editor deste JC, Esmaragdo Marroquim, se reuniam no bar do hotel para jogar conversa fora, entre generosas doses de uísque e o som do piano tocado por Zenilda. Onde estará Zenilda? Elegante, simpática e talentosa, executava um repertório clássico e popular, enquanto Ladjane pintava sem ser incomodada.">Que saudade tenho do Recife da década de 70. Embora vivêssemos em regime de exceção, que saudade tenho do Brasil.
Não passava pela cabeça de ninguém que um dia iríamos ter 50 mil pessoas assassinadas, só em um ano (2006). Quanta aberração. Basta, se eu continuar falando neste assunto vou sair doido à procura de encontrar, no globo terrestre, um lugar ainda sem nome, para viver ou morrer.
Por isso, homenageio Ladjane com este poema: Sou órfão do espanto e da incerteza/ e colhi/ a brevidade de todos os caminhos/. Creio na palavra/ mas prefiro a lembrança/ que depois dela não resta/ senão o verso/ o repouso atormentado/ pela última ventania.
José Mário Rodrigues é escritor e jornalista

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